As eleições de 2026 devem colocar em discussão, além de temas tradicionais da agenda pública, os desafios do Brasil em políticas de inclusão, relações internacionais, ciência, tecnologia e inovação. Especialistas ouvidos pelo programa Painel Eletrônico, da Rádio Câmara, destacaram prioridades que podem ajudar os eleitores a avaliar as propostas apresentadas por candidatos ao Executivo e ao Legislativo.
Entre os pontos ressaltados estão a necessidade de ouvir diretamente as pessoas com deficiência, o reposicionamento do Brasil diante das mudanças no cenário internacional e a criação de condições para que investimentos em pesquisa e desenvolvimento tenham continuidade. A análise foi publicada pela Agência Câmara em 24 de setembro de 2026.
Participação de pessoas com deficiência
Na avaliação de Antônio José Ferreira, coordenador do projeto Inspiração Paralímpica, do Comitê Paralímpico Brasileiro, a pauta das pessoas com deficiência deve ser tratada como uma agenda suprapartidária. Para ele, a formulação de políticas públicas precisa considerar as experiências e as necessidades concretas dessa população.
Ferreira afirmou que, apesar dos avanços promovidos pela Lei Brasileira de Inclusão, mais de 14 milhões de brasileiros com alguma deficiência ainda enfrentam dificuldades no cotidiano. Entre os obstáculos citados estão o preconceito e o capacitismo, que podem restringir o acesso à educação, ao trabalho e a outros direitos.
O especialista defendeu que candidatos aos cargos do Executivo e do Legislativo dialoguem com as próprias pessoas com deficiência antes de elaborar propostas. Segundo ele, existem projetos que não correspondem às demandas reais do público que pretendem atender.
Entre as prioridades apresentadas está a aprovação do Fundo Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, previsto no Projeto de Lei 552/19, que está em análise na Câmara dos Deputados. A ideia é criar uma fonte específica de recursos, em modelo semelhante aos fundos destinados a políticas voltadas para idosos e crianças.
Outra medida apontada é a regulamentação da avaliação biopsicossocial prevista na Lei Brasileira de Inclusão. O procedimento é considerado necessário para que os direitos assegurados pela legislação alcancem as pessoas que efetivamente precisam deles. A existência de recursos, segundo Ferreira, é condição para que as políticas públicas sejam executadas.
Política externa em um cenário internacional mais disputado
Os consultores legislativos Pedro Garrido e Miguel Mikelli Ribeiro destacaram que a política externa é conduzida principalmente pelo Poder Executivo, mas também envolve o Congresso Nacional. Cabe ao Legislativo, entre outras atribuições, aprovar acordos internacionais firmados pelo Brasil e discutir medidas de estímulo a setores com atuação no mercado externo.
De acordo com os especialistas, o país busca ampliar o número de parceiros comerciais sem estabelecer alinhamento automático com os Estados Unidos ou com a China. Ao mesmo tempo, mantém relações relevantes com as duas potências, o que exige equilíbrio nas decisões diplomáticas, comerciais e estratégicas.
Os consultores também mencionaram o enfraquecimento do papel de organismos multilaterais, como a Organização das Nações Unidas, e os debates sobre a atuação de blocos econômicos e políticos, entre eles o Mercosul e o BRICS.
Nesse contexto, a tecnologia passou a ocupar posição central na política externa, sobretudo nos campos da defesa e da segurança. Miguel Mikelli Ribeiro avaliou que a inteligência artificial e outras tecnologias avançadas terão peso crescente na distribuição de poder entre os países.
Pedro Garrido acrescentou que o desenvolvimento tecnológico deve contribuir para o avanço econômico e social. A questão, segundo ele, é garantir que os ganhos gerados por esse processo sejam distribuídos pela sociedade, em vez de ficarem concentrados em poucos setores.
Ciência e inovação dependem de continuidade
Para Fabrício Neves, professor da Universidade de Brasília e especialista em políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação, o eleitor deve observar não apenas quanto os candidatos pretendem investir no setor, mas também qual é a posição deles sobre a ciência.
O pesquisador defendeu que ciência, tecnologia e inovação sejam tratadas como instrumentos de redução das desigualdades e de ampliação da equidade social. Para isso, os investimentos precisam ser contínuos e previsíveis, permitindo o planejamento de pesquisas de longo prazo.
Neves criticou a possibilidade de alteração frequente das regras a cada ciclo de governo. Na avaliação dele, a estabilidade é essencial para preservar projetos científicos e criar condições para o desenvolvimento de tecnologias disruptivas.
Segundo os dados apresentados na entrevista, o Brasil investe atualmente cerca de 1,2% do Produto Interno Bruto em ciência, tecnologia e inovação. A Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação 2024-2034 estabelece como meta elevar esse percentual para 2% ao final do período.
O professor também destacou o papel das universidades públicas, responsáveis por 95% das pesquisas realizadas no país, de acordo com a informação apresentada no programa. Por isso, defendeu a manutenção de recursos para estudos e bolsas de mestrado e doutorado.
Semicondutores, inteligência artificial e terras raras
Embora o Brasil tenha construído uma infraestrutura científica ampla, ainda existem dificuldades em áreas consideradas estratégicas, como semicondutores, inteligência artificial e tecnologias quânticas. O domínio desses setores é apontado como relevante para a autonomia econômica, a segurança nacional e a capacidade de inovação.
Fabrício Neves também citou o potencial das reservas brasileiras de terras raras. Esses elementos são utilizados em diferentes produtos e tecnologias, mas o desafio está em ampliar a capacidade de processamento e transformação dentro do próprio país.
A discussão sobre inovação, portanto, não se limita ao volume de recursos destinado à pesquisa. Também envolve a criação de políticas industriais, a formação de profissionais, o fortalecimento das universidades e a capacidade de transformar conhecimento científico em produtos, serviços e soluções para a população.
O que observar nas propostas para 2026
As análises reunidas pela Rádio Câmara indicam que o debate eleitoral pode ser avaliado a partir de compromissos concretos. Na área de inclusão, o eleitor pode verificar se as propostas foram construídas com participação das pessoas com deficiência e se apresentam mecanismos de financiamento e execução.
Na política externa, é importante observar como os candidatos pretendem combinar relações comerciais, defesa dos interesses nacionais, cooperação internacional e participação em organismos multilaterais. Em ciência e tecnologia, os principais pontos são a previsibilidade dos investimentos, o apoio à pesquisa e a estratégia para setores como inteligência artificial, semicondutores e tecnologias quânticas.
Esses temas estão relacionados entre si. A inclusão depende de políticas públicas efetivas; a diplomacia é influenciada pelo domínio tecnológico; e a inovação pode ampliar oportunidades econômicas e sociais quando acompanhada de planejamento, financiamento e distribuição dos resultados.
As propostas para as eleições de 2026, nesse sentido, deverão ser analisadas não apenas pelas promessas apresentadas, mas também pela clareza das metas, pela indicação de recursos e pela capacidade de transformar diretrizes gerais em políticas públicas permanentes.
Fonte: Agência Câmara de Notícias







