segunda-feira, 12 de outubro de 2026
CIDADES

Fumaça em Manaus depende da combinação entre fogo, vento e momento das ocorrências

A redução dos focos de calor no Amazonas entre agosto e setembro de 2026 não ocorreu de forma uniforme. Enquanto municípios do sul registraram queda, localidades próximas de Manaus e do setor leste tiveram aumento. A circulação atmosférica pode favorecer o transporte de partículas, mas os dados disponíveis não confirmam a origem da fumaça em cada episódio.
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A análise sobre episódios de fumaça em Manaus depende da combinação de três elementos: a localização das queimadas, a circulação dos ventos e o momento em que as ocorrências foram registradas. Um levantamento da NEX Hub de Análises Estratégicas identificou queda de 26,9% nos focos de calor do Amazonas entre agosto e setembro de 2026, na comparação com os mesmos meses de 2023. Ao mesmo tempo, municípios próximos da capital e do setor leste do estado apresentaram aumento.

O contraste impede que a redução estadual seja interpretada, isoladamente, como sinal de menor possibilidade de fumaça em Manaus. Os mapas analisados mostram orientações de vento compatíveis com possíveis corredores de transporte de ar até a região da capital, sobretudo a partir do leste e, sob determinadas condições, do sudeste. As imagens, porém, não confirmam o sentido efetivo das partículas nem identificam a origem de cada episódio.

Levantamento reúne dados de satélite e informações territoriais

O estudo foi elaborado com dados do Painel do Fogo do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e informações territoriais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No bimestre de agosto e setembro de 2026, foram contabilizados 65.610 focos de calor no Amazonas. No mesmo período de 2023, o total havia sido de 89.758 detecções.

A diferença corresponde a 24.148 registros a menos e representa redução de 26,9%. O resultado estadual, no entanto, reúne comportamentos distintos entre os municípios. Dos 62 municípios amazonenses, 16 tiveram crescimento no número de focos, entre eles Manacapuru, Iranduba, Itacoatiara, Rio Preto da Eva, Careiro e Manaquiri.

Na região intermediária de Manaus, divisão territorial do IBGE que abrange uma área maior que o entorno imediato da capital, os registros passaram de 18.231 para 18.980, alta de 4,1%. Na região intermediária de Parintins, o total subiu de 10.290 para 10.686, crescimento de 3,8%.

Municípios próximos da capital tiveram altas expressivas

Manacapuru apresentou o maior acréscimo absoluto do levantamento. O município passou de 1.230 focos entre agosto e setembro de 2023 para 2.730 no mesmo período de 2026. Foram 1.500 detecções adicionais, aumento de 122%.

Iranduba registrou a maior variação percentual entre os municípios destacados, com alta de 242,2%. Os focos passaram de 192 para 657. Em Caapiranga, o total subiu de 946 para 2.248, crescimento de 137,6%.

Também houve aumento em Itacoatiara, de 1.710 para 1.962 focos, alta de 14,7%; em Careiro, de 1.236 para 1.442, crescimento de 16,7%; em Manaquiri, de 1.247 para 1.328, aumento de 6,5%; e em Rio Preto da Eva, de 241 para 327, alta de 35,7%.

Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282 registros, crescimento de 29,2%. Borba subiu de 1.550 para 1.771, alta de 14,3%. Em Urucurituba, os focos passaram de 457 para 1.192, aumento de 160,8%.

A própria Manaus registrou crescimento. O número de detecções subiu de 490, em 2023, para 557, em 2026, alta de 13,7%. Por isso, a avaliação de possíveis fontes de fumaça também precisa considerar ocorrências dentro do território da capital.

Setor leste aparece como área de acompanhamento

As imagens analisadas do Windy mostram, no corredor entre Parintins, a região de Urucará, Itacoatiara e Manaus, traços de circulação atmosférica com orientação aproximada de leste-nordeste para oeste-sudoeste. Esse alinhamento é compatível com uma possível movimentação de ar do setor leste em direção à região da capital.

Se as partículas seguirem esse deslocamento, queimadas localizadas no corredor poderão contribuir para o transporte de fumaça até Manaus. A hipótese, contudo, depende do sentido efetivo do vento no período das ocorrências e da trajetória das plumas em diferentes altitudes.

Itacoatiara ganha relevância nessa leitura por estar a leste de Manaus e ter registrado 252 focos a mais no bimestre de 2026. Outros municípios do setor também apresentaram crescimento. Urucurituba teve aumento de 160,8%, enquanto Boa Vista do Ramos passou de 690 para 1.022 detecções, alta de 48,1%.

Os dados colocam essas localidades no radar de acompanhamento, mas não demonstram que a fumaça produzida nelas tenha alcançado a capital. A confirmação exigiria o cruzamento entre imagens das plumas, horários dos focos e condições atmosféricas observadas no mesmo período.

Possível contribuição do sudeste depende da circulação

Outra área considerada no levantamento está entre Borba e Itacoatiara. Os mapas apresentam traços com orientação diagonal que, caso indiquem deslocamento do sudeste para o noroeste, poderiam favorecer a aproximação de ar vindo de áreas situadas a sudeste de Manaus.

Borba teve aumento de 1.550 para 1.771 focos, enquanto Nova Olinda do Norte passou de 992 para 1.282. Esses resultados justificam o acompanhamento das localidades, sem estabelecer uma relação direta com episódios de fumaça na capital.

Autazes e Careiro da Várzea também integram a análise geográfica do setor sudeste, mas registraram queda. Autazes passou de 4.372 para 2.829 focos, recuo de 35,3%. Em Careiro da Várzea, o total caiu de 1.603 para 1.428, redução de 10,9%.

A diminuição não elimina, por si só, a possibilidade de contribuição desses municípios. As duas localidades mantiveram quantidade significativa de registros, e o transporte de partículas depende da configuração atmosférica no momento de cada ocorrência. Careiro da Várzea apresentou a maior densidade de focos por área municipal no levantamento de 2026, com 543,5 detecções por 1.000 quilômetros quadrados.

Altas a oeste exigem outra configuração de vento

Manacapuru, Iranduba e Caapiranga estão em setores a oeste e sudoeste de Manaus. O crescimento dos focos nesses municípios é relevante para o mapa estadual, mas o transporte de fumaça até a capital dependeria de circulação proveniente dessas direções ou de trajetórias atmosféricas capazes de levar as partículas até a cidade.

O alinhamento observado no corredor leste não explica, sozinho, uma eventual contribuição de Manacapuru ou Iranduba. Para avaliar esses municípios, seria necessário verificar outra configuração do fluxo de ar. A posição dos focos indica onde houve aumento; a meteorologia ajuda a estimar em quais condições as partículas poderiam se deslocar.

Histórico de ventos registra predominância de leste e nordeste

Um estudo apresentado no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia, com dados da estação automática do Instituto Nacional de Meteorologia em Manaus entre 2012 e 2019, identificou predominância de ventos de leste e nordeste nos períodos seco e chuvoso.

Na meteorologia, a direção do vento indica de onde ele vem. Assim, um vento de leste sopra do leste para o oeste. Esse padrão histórico torna pertinente o acompanhamento de municípios situados nos setores leste e nordeste, embora não determine o comportamento atmosférico em todos os dias.

A circulação pode variar conforme as condições regionais, as chuvas e fatores locais. O estudo também menciona possível influência de brisas fluviais e diferenças entre os ventos próximos à superfície e aqueles registrados em níveis mais elevados.

Imagens estáticas não confirmam a trajetória da fumaça

As capturas do Windy utilizadas na análise estão em camadas diferentes. A primeira corresponde à temperatura, enquanto a segunda apresenta a acumulação de vento. As cores exibidas não representam concentração de fumaça nem qualidade do ar.

Na segunda imagem, o indicador de 18 nós, equivalente a aproximadamente 33 quilômetros por hora, refere-se ao ponto e à camada selecionados. O dado não deve ser interpretado como velocidade atual do vento em Manaus.

Os traços brancos permitem observar o alinhamento do fluxo, mas uma imagem estática não mostra com segurança para qual lado as partículas se deslocam. As capturas também não apresentam de forma legível a data, o horário e a configuração completa da previsão. Por isso, não é possível afirmar que o fluxo representado corresponda às condições dos incêndios registrados em agosto e setembro de 2026.

Queda estadual foi influenciada pelo recuo no sul

A redução do total amazonense foi influenciada pela queda em municípios que concentravam grande número de detecções em 2023. Em Lábrea, os focos passaram de 10.486 para 4.094, recuo de 61%. Humaitá caiu de 5.314 para 1.530, baixa de 71,2%.

Canutama passou de 3.644 para 1.013 registros, redução de 72,2%, enquanto Boca do Acre caiu de 5.080 para 2.107, recuo de 58,5%. Também houve queda em Novo Aripuanã, de 23,7%; Manicoré, de 46,6%; e Tapauá, de 68,9%.

Apuí seguiu em sentido contrário. O município passou de 10.342 para 11.033 focos, aumento de 6,7%, e apresentou o maior total estadual no bimestre de 2026.

Comparação não inclui outubro de 2026

O levantamento compara apenas agosto e setembro de 2023 com os mesmos meses de 2026. Os dados de outubro de 2026 ainda não estavam disponíveis no material, o que impede a comparação entre trimestres completos.

Em 2023, outubro acrescentou 31.782 focos. Com isso, o período de agosto a outubro chegou a 121.540 detecções, e outubro respondeu por aproximadamente 26,1% do trimestre. O estudo contextualiza 2023 como um ano marcado por El Niño e seca severa, mas a comparação apresentada mede a variação dos registros e não determina, isoladamente, a participação de fatores climáticos ou de ações de prevenção e combate.

Foco de calor não equivale a incêndio individual

A metodologia soma detecções de satélite organizadas por município e exportadas do Painel do Fogo do SIPAM. As informações territoriais do IBGE foram usadas para calcular a densidade por 1.000 quilômetros quadrados.

Um foco de calor não corresponde necessariamente a um incêndio individual. Uma mesma ocorrência pode gerar múltiplas detecções, e o indicador não mede diretamente a área queimada nem o volume de fumaça produzido.

O cruzamento dos dados sustenta a possibilidade de que o aumento dos focos em parte do entorno e do setor leste de Manaus contribua para episódios de fumaça quando os ventos favorecem o transporte até a capital, mesmo com a redução do total estadual. Para identificar quais municípios participaram de cada episódio, será necessário combinar localização e horário das detecções com imagens das plumas e trajetórias do ar em diferentes alturas.